TERRITÓRIOS

Urdaibai
País Basco

Sumário

Após a crise de sua indústria nas décadas de 70 e 80 do século passado (particularmente em Gernika-Lumo), o declínio do sector agrícola e a crise no sector da pesca (de forma acentuada em Bermeo) e após a protecção ambiental com a declaração da Reserva da Biosfera da UNESCO em 1984 e a aprovação da Lei de Proteção e Regulamentação da Reserva da Biosfera de Urdaibai pelo Parlamento Basco, a região tem sido objeto de inúmeros planos de desenvolvimento e planeamento territorial (PRUG 1993 e 2016, Programa de Harmonização e Desenvolvimento de Actividades Económicas 1998, Plano Energético-Ambiental de Urdaibai 2003, Plano de Desenvolvimento GV 2010 …) que não foram capazes de garantir um estado de bem-estar e criar expectativas e expectativas futuras de melhoria da sustentabilidade da vida para os seus habitantes. Parece que a região se está a tornar uma cidade dormitório, onde diariamente milhares de pessoas saem para trabalhar noutras regiões, ou num espaço residencial para pessoas com poder aquisitivo.

Além disso, devido à desinformação e a informações e mensagens contrárias ao projeto Urdaibai, a população local percebe a protecção ambiental da Reserva da Biosfera de Urdaibai como um obstáculo ao desenvolvimento económico e à busca de soluções habitacionais para a população local

Mas a zona de Gernika é também uma área de organização da classe trabalhadora, de cooperativas, espaços de criação social e cultural como o espaço Astra e que tem experiências de resistência e alternativas ao modelo hegemónico como a experiência do Centro Público Allende Salazar, e a sua cantina escolar, na qual 57% dos produtos são provenientes de Urdaibai e 19% são comprados de fornecedores de outras regiões do País Basco. 70% dos produtos utilizados são de cultivo e produção biológica.

Portanto, neste contexto, é essencial ampliar o conhecimento sobre os impactos, reconhecer as resistências e alternativas e promover, a partir de diferentes esferas, uma geração de consciência crítica e acção e incidência.

Nos workshops que foram desenvolvidos com os actores presentes em Busturialdea-Urdaibai, constatou-se que na região existem inúmeras iniciativas e projetos para abordar os problemas e desafios que levantam preocupações ou tentam fornecer uma solução a desafios inadiáveis. Por um lado, ao longo de todos os encontros realizados, tanto nos workshops gerais como nos específicos com os jovens, constatou-se que, embora a actividade institucional seja complicada na área – especialmente a de elaboração de diagnósticos e planos e da gestão diária – a intervenção das colectividades sociais é necessária e activada para atender aspectos básicos e fundamentais e como resposta a modelos de desenvolvimento indesejados.

Por outro lado, novos processos sociais, económicos, ambientais, etc., podem ser adicionados às deficiências identificadas, que podem ser enquadradas na crise global, que estão a causar o aparecimento de grandes “operadores” ou empresas que tentam “tomar terras” e posse em Urdaibai.

Estudo de caso

Este trabalho foi realizado por uma equipa composta por uma dezena de pessoas, das organizações locais Gernika Gogoratuz e Gernikatik Mundura, outras pessoas colaboradoras e também do corpo docente da Universidade do País Basco (UPV/EHU). O seu programa de acção consistiu em desenhar a investigação – enfoque metodológico – em relação às entidades actoras ou movimentos sociais da comarca, e abrir uma reflexão partilhada com os colectivos sociais, analisando os principais conflitos e desafios ambientais, culturais, económicos, sociais e políticos da Reserva da Biosfera de Urdaibai e da comarca de Busturialdea (País Basco). Perante o diagnóstico inicial de problemas e desafios, detectaram-se e observaram-se as resistências e alternativas que foram surgindo e que se articularam dentro dos movimentos associativos.

Foram quatro as áreas definidas para realizar a investigação: sustentabilidade ambiental; acesso à terra; desigualdades de género; e identidade cultural, incluindo neste âmbito a língua basca (euskara).

Atividades

As principais acções realizadas na Fase I

Na Fase I do projecto, uma equipa de professores/as da UPV/EHU, de Gernika Gogoratuz e de activistas de Urdaibai realizou várias atividades e iniciativas em diferentes âmbitos:

(1) Investigação e estudo – Uma das áreas de acção consistiu em recolher informação e elaborar um quadro atual dos agentes da comarca, bem como iniciar uma reflexão colectiva e partilhada, analisando os principais conflitos e desafios ambientais, culturais, económicos, sociais e políticos da Reserva da Biosfera de Urdaibai em Busturialdea (País Basco). Uma vez iniciado um processo participativo com pessoas “ponte” e referenciais na zona, fez-se um diagnóstico inicial dos problemas e desafios, identificaram-se e observaram-se os principais conflitos e analisaram-se os discursos e as práticas alternativas que se estão a articular no território. Tentou-se iniciar um processo no qual os actores com a capacidade de reflexão e acção nesta comarca se relacionem e compartilhem as suas preocupações e as iniciativas que considerem interessantes.

(2) Trabalho de Campo  – Para articular este processo de investigação-acção-participação, organizaram-se workshops em três momentos. Para articular um primeiro espaço de encontro entre os actores de Urdaibai, foi organizado um workshop geral que decorreu na fábrica social de criação cultural de Gernika-Lumo, Astra, ao qual se seguiram outros dois workshops, um mais específico para a área de Bermeo (a outra cabeceira da comarca) e outro específico para os jovens. O objetivo destes encontros foi duplo: por um lado, identificar os principais conflitos e desafios enfrentados por este território; por outro, analisar os processos coletivos e alternativas geradas nos últimos anos.

Sistematizada esta informação, num segundo momento, fez-se um contraste com o mesmo grupo de participantes, ao qual se juntaram outras pessoas e grupos sugeridos na primeira fase. Nesta ocasião, os principais objetivos foram: divulgar e compartilhar as propostas que estavam a gerar processos de mudança em Urdaibai; sondar e avaliar os espaços de diálogo e participação, tanto entre agentes sociais como com as administrações. Por fim, e para completar o trabalho de campo, decidiu-se abrir uma rodada de entrevistas com pessoas do âmbito académico e de políticas públicas, de diferentes perfis e ideologias, com a dupla intenção de articular pontes entre as diferentes visões que existem actualmente na comarca e abrir novos espaços para deliberação

(3) Disseminação de resultados  – Depois de recompilar todas as informações num relatório e no documentário “Oreka bizian”, onde se mostram visualmente algumas das iniciativas mais interessantes que estão a gerar processos de mudança em Urdaibai; organizaram-se diferentes actividades (eventos públicos para exibir o documentário; entrevistas nos meios de comunicação locais), palestras e comunicações em congressos académicos, apresentações em centros educativos …) com a intenção de devolver estes resultados às pessoas que participaram do processo e socializar os avanços com o público em geral. Esta socialização pretende servir para uma nova fase em que essas resistências e alternativas ao “desenvolvimentismo” serão acompanhadas, e onde serão analisados espaços de interação para alcançar posições comuns entre os sectores organizados e as autoridades e administrações locais.

(4) Formação – A partir do esforço de investigação teórica de uma equipa mista de Gernika Gogoratuz, UPV/EHU e com o conhecimento e a experiência de activistas de diferentes associações de Urdaibai, foram criados e recompilados diversos materiais escritos e audiovisuais para a página web e para o curso internacional online do projecto Territórios em Conflito, que servem para explorar as tensões entre as pretensões “desenvolvimentistas” de certos sectores económicos e políticos e a procura local por projectos próprios alternativos para esta comarca do País Basco. Para os objetivos informativos e formativos, este trabalho de criação e recompilação serve para relacionar as nossas lutas locais com o contexto global e gerar espaços de encontro e redes internacionais que conectem territórios, pessoas e alternativas. É de realçar a colaboração com o eCampus UPV/EHU para a implementação do Curso Internacional Online oferecido por diferentes instituições em Moçambique, Colômbia, Portugal e Espanha.

(5) Advocacia – No documentário “Oreka bizian” e nas publicações sobre Urdaibai destacaram-se as alternativas presentes na comarca que confrontam as iniciativas do modelo desenvolvimentista-capitalista. A participação de jovens em projectos como Astra, Lobak, Arkibai, Lekuek …; as cantinas escolares colectivas e sustentáveis como Jangurie, que põem em contacto directo “baserritaras” e a comunidade educativa e são alternativas aos lotes agroindustriais e às grandes empresas de catering; ou iniciativas cidadãs como Kolore Guztietako Basoak, que propõem políticas florestais alternativas e sustentáveis, são algumas das experiências destacadas. Estes materiais estão a ser apresentados e utilizados em diferentes fóruns (I Congresso Internacional sobre Urdaibai, apresentações a colectivos, actividades de formação nas escolas em colaboração com Justiça Alimentar …) para mostrar que no nosso contexto existem iniciativas colectivas capazes de gerar processos de mudança que nos permitem viver melhor.

Principais resultados alcançados

1- Criaram-se novos espaços de encontro e debate para identificar os problemas e as alternativas existentes na comarca, nos quais participaram quase uma centena de pessoas de diferentes procedências sociopolíticas.

2- Realizou-se um mapeamento de actores sociais e processos colectivos activos em Urdaibai que proporcionou informação, conhecimento e recursos para apoiar as experiências de resistência e alternativas ao actual modelo capitalista.

3- Elaborou-se um relatório sobre a situação e as iniciativas existentes em Urdaibai, recompilou-se uma imensidade de materiais sobre a comarca na página Web, e organizaram-se eventos formativos e de advocacia para destacar as iniciativas colectivas locais que propõem alternativas ao modelo dominante.

4- Criou-se e consolidou-se um grupo de investigação formado por activistas de Urdaibai e professores/as da UPV/EHU, que pôs em prática um quadro teórico e propostas analíticas, com as quais trabalhavam desde há vários anos, e que tem como objectivo facilitar espaços de encontro que favoreçam o desenvolvimento humano sustentável da comarca.

5- Surgem novas sinergias entre a UPV/EHU, os patronos da Reserva da Biosfera de Urdaibai, outras instituições públicas e os colectivos sociais da comarca, que permitem explorar futuros posicionamentos comuns entre diferentes actores e alternativas de vida face aos planos desenvolvimentistas-capitalistas.

Lições aprendidas

1

Neste processo de investigação, acção e participação, constatámos uma falta de relação entre as diferentes iniciativas, cada uma com visões interessantes, mas demasiado focadas nos seus interesses específicos. Em Busturialdea-Urdaibai, existe uma comunidade social muito envolvida na defesa de seu território e cultura que tenta enfrentar os principais desafios: falta de estratégias partilhadas; declínio económico e de emprego; nula participação dos actores sociais na tomada de decisão; oportunidade / obstáculo que supõe a existência da Reserva da Biosfera; desacordos sobre as grandes infraestruturas Guggenheim, estradas de Sollube e Autzagane -, o modelo de turismo, a gestão da água (integração ou não no Consórcio de Águas de Bilbau); perda de solos; contaminação de aquíferos; crise florestal e da agricultura familiar; várias desigualdades de género e injustiças sociais; falta de integração das pessoas imigrantes; falta de políticas de envelhecimento activo; expressões culturais discriminatórias.

2

Constatou-se pouca reflexão sobre as reais capacidades de advocacia política. A comunidade de Urdaibai demonstra constantemente ter capacidades suficientes para avançar em direção a uma coexistência activa e criativa, mas a falta de relacionamento e de partilha de visões e conhecimentos entre organizações e indivíduos trava o progresso na construção de preocupações e propostas comuns. A criação de novos espaços deliberativos permite começar a superar esse desconhecimento e identificar boas práticas de alternativas onde se activam lideranças e capacidades coletivas. Infelizmente, o nível de organização e de capacidade de advocacia política dos grupos sociais nem sempre é igual. Enquanto que os jovens da comarca desenvolveram várias alternativas ao modelo cultural de consumo passivo e mercantilista, outras organizações sociais e ambientalistas locais estão já a sentir-se um pouco cansadas, devido à falta de mudança geracional. Finalmente, no processo dos workshops, chamou a atenção a escassa reflexão colectiva sobre o modelo económico e turístico.

3

Existe uma evidente falta de diálogo entre as administrações e a sociedade civil organizada, que se reflecte numa percepção geral sobre a ausência de uma estratégia para o desenvolvimento integral do território Busturialdea-Urdaibai. Esta falta de estratégia exacerba a preocupação com o futuro económico da comarca (declínio dos sectores de atividade económica, desemprego e insegurança no emprego, falta de perspectivas para a população jovem …) e a crescente convicção de que o centro de decisões sobre o futuro da comarca está centrado em Bilbau. Embora existam inúmeros estudos, diagnósticos e planos de desenvolvimento, considera-se que existe uma profunda falta de definição do modelo territorial, social, económico e cultural. Em resumo, este território carece de um diagnóstico partilhado, de planos conjuntos de actuação local e de uma liderança colectiva que defenda a comarca e as suas necessidades.

4

Apesar da falta desses diagnósticos e planos de actuação partilhados e dessa liderança colectiva, deve-se sublinhar o potencial emergente de algumas iniciativas sociais e outras mais consolidadas que demonstram que o trabalho colectivo pode reverter algumas das questões identificadas. Em Urdaibai, existem actores com capacidade de reflexão e acção, mas falta fortalecer a criação de redes e espaços comuns onde se possa partilhar visões com diferentes actores, onde se favoreça a participação de sectores especialmente excluídos (jovens, mulheres, pessoas idosas, migrantes, desempregadas, etc.) para que estejam envolvidos/as na identificação destes problemas e propostas.

Eventos

20/06/2018

Astra (Gernika)

1º Workshop: Mapear colectivamente Urdaibai

16/01/2019

Astra (Gernika)

2º Workshop: Explorando visões compartilhadas, novas alternativas e processos colectivos.